TABELIONATO HÖHER
TABELIONATO HÖHER
“Guardiões do tempo em Lomba Grande”…assim inicia uma magnífica crônica que tem a assinatura talentosa de Vera Lúcia Höher Krug, contando a trajetória da família precursora dafundação do cartório distrital em nossa localidade.
Nas últimas décadas do século XIX, Lomba Grande não era mais que um punhado de coxilhas verdes, caminhos de terra batida e o som cadenciado das carretas de boi cortando o silêncio da colônia. Naqueles tempos em que a palavra empenhada no fio do bigode valia ouro, a comunidade alemã que ali florescia precisava de algo mais para fixar suas raízes no chão do Rio Grande: precisava da memória escrita. Foi no ano de 1889, enquanto o Brasil ainda digeria a transição da Monarquia para a República, que nasceu o Cartório Distrital de Lomba Grande. E, com ele, a figura central que daria alma e corpo ao papel: Felippe Höher.
Felippe não era apenas o homem do terno alinhado e da pena de molhar na tinta. Era um verdadeiro pilar da comunidade. Ao assumir como o primeiro escrivão e tabelião oficial do distrito, trouxe para a pequena mesa de madeira a responsabilidade de dar existência formal ao invisível. Era Felippe quem anotava, em caligrafia impecável nos pesados livros de couro, o primeiro choro de uma criança que chegava ao mundo, o "sim" emocionado dos jovens colonos no altar e o silêncio respeitoso diante dos que partiam. Nas páginas amareladas sob sua custódia, o chão de Lomba Grande deixava de ser apenas posse para virar direito, herança e história. Com o passar dos anos, o peso dos livros e da sabedoria acumulada encontrou um herdeiro natural.
A transição para seu filho, José Afonso Höher, não ocorreu por mero acaso burocrático, mas como quem passa a tocha da responsabilidade familiar. Ao lado do pai, aprendera que atender no cartório não era carimbar papéis, mas escutar com empatia o lavrador que trazia as mãos calejadas da roça. Ao assumir a titularidade, deu continuidade ao legado com o mesmo rigor, garantindo que o acervo notarial permanecesse firme e seguro enquanto Lomba Grande se transformava. Contudo, a história reservava um capítulo ainda mais marcante para a liderança do cartório. Com o falecimento de José Afonso Höher, quem herdou a serventia e o honrado título de Escrivã foi a senhora Erna Olinda Höher.
Dona Erna assumiu o cartório com uma postura reta, altiva e inabalável autoridade. Em uma época em que o comando das instituições públicas e notariais era majoritariamente masculino, ela se impôs pelo saber, pela disciplina impecável e pelo profundo respeito às leis e à sua gente. Com olhar atento e passos firmes, Dona Erna desempenhou um papel gigante na comunidade lombagrandense: era o ponto focal de resolução de conflitos, a guardiã das escrituras e a voz de sabedoria a quem todos recorriam. Sob sua gestão rigorosa, o cartório não apenas preservou o seu prestígio, mas tornou-se um símbolo de ordem, integridade e acolhimento.
A família Höher transformou o trabalho notarial em um sacerdócio comunitário. Foram mais de cem anos de uma dinastia do papel e da palavra. Mais do que registrar a história de uma localidade, a Família Höher — de Felippe a José Afonso, e culminando na altiva liderança deDona Erna Olinda Hoher, filho Gerson José Hoher — escreveu a sua própria nas mesmas linhas em que eternizou a vida de gerações de gaúchos e colonos. Hoje, ao caminhar pelas ruas calmas de Lomba Grande, sabe-se que debaixo da terra e nos arquivos do tempo, cada nome e cada casa carregam a assinatura e a dedicação impecável dos Höher.
Registro fotográfico de uma reunião de lideranças de Lomba Grande, onde aparece Dna Ernasentada (1ª a esquerda). Acervo familiar.
Imagens
RELACIONADOS
Leia também